Olá amigos, chegamos na parte 2, considero a virada do milênio como o período mais prolífico por duas razões: a primeira se deve ao acesso mais fácil com a popularização dos computadores pessoais e da internet, antes grupos de fansubbers restringidos a pessoas próximas e de um mesmo local passaram a se reunir de diferentes lugares por meios de clientes IRC e mensageiros instantâneos, juntamente a outros fãs de animes. O surgimento de codecs de vídeo mais eficientes e reprodutores de mídia permitiu os episódios legendados serem executados em computadores pessoais, e a distribuição de episódios em fitas caiu em desuso.
O vídeo abaixo do canal Otaking Animation exemplifica bem a transição dos anos 90 aos anos 2000 na legendagem de animes:
No Brasil, mesmo com a popularização dos produtos audiovisuais nipônicos, sobretudo na extinta TV Manchete na década de 90 e a consolidação da TV paga, os modos de tratamento concedidos por emissoras (como a Globo e a Cartoon Network) no decorrer do processo de mediação atrapalhou na experiência dos fãs com os anime. Os freqüentes cortes e edições de episódios, a ausência de uma cronologia na exibição dos episódios, mudanças de horário na exibição das séries (sem aviso prévio para os assinantes) são traços que, historicamente, marcam um tipo de tratamento arraigado concedido pelas emissoras abertas e a cabo às series (animadas) japonesas. Mesmo o mercado home-video não foi atrativa para os fãs, pois pautou a escolha das séries para comercialização no fato de escolher produções transmitidas anteriormente em alguma rede de televisão e construído uma rede considerável de fãs de modo a tornar-se passível de ser comercializada em DVD mediante a essa comprovação prévia de sua popularidade.
Como foi constatado, as particularidades da mediação oficial negligenciaram as demandas dos fãs brasileiros. Nessa direção, afirmamos que com a internet, as possibilidades de experiência com os animes se ampliaram exponencialmente, principalmente, devido às múltiplas maneiras de engajamento possibilitadas pelo meio. Os fãs brasileiros foram construindo maneiras particulares de envolvimento com esses produtos, que se materializam em diversas intervenções narrativas, escritas ou audiovisuais apoiadas pelas facilidades advindas da popularização das tecnologias digitais e democratização dos meios de produção. Para além da experiência circunscrita no âmbito da mediação oficial, esses fãs foram constituindo redes de contato e afeto caracterizadas por práticas e expressões diversas, produzindo novos sentidos em ocasião da apropriação e consumo desses produtos, isto é, recontextualizando-os e transmutando-os em artefatos investidos significados.
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| Sites com hospedagem de episódios para baixar eram comuns nos anos 2000. |
A segunda razão se deve a possibilidade do usuário pela primeira vez acompanhar através das redes digitais fóruns de discussão, consumir os últimos lançamentos do mercado e, até mesmo se envolver de maneira mais comprometida com a criação de pinturas (fanarts) inspiradas em personagens e cenários ficcionais dos animes à produção de ficções e poemas (fanfictions), músicas, vídeos e filmes (Anime Music Vídeo, fanfilms fandubs), periódicos e websites. Trata-se, pois, de práticas culturais que atuam significativamente no estabelecimento de um envolvimento mais imersivo com aspectos da cultura japonesa, promovendo um prolongamento da experiência de um dado texto cultural. Os fansubbers passaram a obter episódios raws (os episódios na língua original) mais facilmente a partir de grupos de pirataria estrangeiros via internet. As raws podem ser originadas a partir de uma transmissão gravada de televisão, volumes licenciados de DVD ou Blu-ray e mais recentemente a partir de plataformas online de streaming.
A prática fansubber se configura num processo altamente especializado e diversificado e que, prioritariamente, necessita dos usos de tecnologias e competências humanas para ganhar forma. Naturalmente, para que a atividade tenha seu êxito, as etapas de produção são previamente planejadas, seguindo uma lógica compartilhada, em boa medida, entre os grupos que atuam em diversos países, mas não só isso. Diferentemente das séries televisuais americanas, que possuem conteúdo e linguagem popularizados no Brasil e no mundo, os textos de mídia japoneses carregam uma série de traços, valores e sentidos próprios pouco conhecidos pelo grande público. Por isso, o conhecimento da cultura e língua japonesa para a mediação e decodificação desses textos é deveras valorizado na comunidade fansubber.
No decorrer do processo, esses textos de mídia recebem um tratamento diferenciado pela tradução fansubber. Devido à barreira do idioma ser maior do que a da do inglês e maioria dos idiomas ocidentais, indo desde a escrita e até a pronúncia e pelas diferenças culturais muitas vezes necessárias para compreensão de uma fala ou atitude de um personagem, as traduções bem como as legendas criadas pelos fansubs podem ser tomadas como “especiais”, em detrimento à noção da “tradução e/ou legenda profissional”.
Como Ferrer Simó (2005) demonstra em artigo pioneiro, existem diferenças substanciais quanto às características que distinguem a legenda fansubber da legendagem profissional. São elas:
- 1) Uso de fontes diferentes através e uso de cores para identificar os diferentes personagens;
- 2) A utilização de mais subtítulos com mais de duas linhas (até quatro linhas);
- 3) Utilização de notas lineares na parte superior da tela;
- 4) Utilização de efeitos no corpo das legendas;
- 5) A posição de legendas varia na tela (scenetiming), karaokê nas aberturas e encerramentos;
- 6) Adição de informações sobre os grupos;
- 7) Tradução dos créditos de abertura e encerramento.
Referências Bibliográficas:
OtaKing Animation. Anime Fansub Documentary PART 1. Youtube, 2008. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IUYlqLlbix0. Acesso em 26/01/2024.
LUZ URBANO, Krystal Cortez. LEGENDAR E DISTRIBUIR: O fandom de animes e as políticas de mediação fansubber nas redes digitais. 2008. 174 páginas. Curso de Pós Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre. Área de Concentração: Comunicação Social. Linha de Pesquisa: Estéticas e tecnologias da comunicação.

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