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Gnose em animes, um fenômeno corriqueiro




Antes de fazer qualquer menção é mais prudente enfatizar o que é gnose e usar duas definições claras sobre o tema.

Considerações iniciais
Busquei referências do assunto e encontrei a bela tradução do Dissidência Pop ao artigo “Gnósticos Sonham Com Robôs Gigantes? O crescimento do gnosticismo nos animes japoneses”, de autoria de Miguel Conner e co-escrito com Elan Gonzales e publicado no “The Gnostic: A Journal of Gnosticism, Westerm Esotericism and Spirituality”, Terceira Edição.

O dissidência Pop também faz menções para alguns clássicos da ficção científica das últimas décadas associando elas ao gnosticismo, como Blade Runner, adaptação inspirada pelo clássico Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? de Philip K. Dick.

Quero ressaltar a opinião dos autores, embora eu não concorde por inteiro é importante ter idéia da contribuição do artigo para a disseminação de conhecimento e o levantamento de discussões que possam trazer novas luzes ao tema. Deixei citando os autores todos os trechos retirados.

Definição clássica

Existem n definições de gnose, mas o que busco com esse texto é informar, não tornar mais difícil a compreensão do termo. A partir disso vamos aos dois com maior difusão, o primeiro é a definição clássica de gnose, que é a doutrina nascida do cerne do cristianismo e logo repudiada pelos cristãos porque visa a salvação não através da Fé em Jesus, mas pelo conhecimento. Sua explicação da relação entre Deus, homem e o universo exprime o mundo como uma prisão criada por Demiurgo, um ser inferior a Deus e o corpo como cárcere do espírito humano, visão contrária da católica que define o mundo como criação de Deus Pai em comunhão com as outras duas pessoas da Santíssima Trindade, o corpo não como correntes aprisionando a alma, mas sim em união com ela e a busca do homem pelo divino pela fé, utilizando o conhecimento como meio para amar, servir e conhecer mais profundamente Deus.

Definição de Eric Voegelin

Essa Definição está presente em nossos dias em apresentar o gnosticismo como ferramenta de transformação social, a partir dela o termo passa a ser a transformação do homem na sociedade e no Estado em volta, não somente em seu interior. O gnosticismo na modernidade de acordo com Voegelin apresenta seis características como primárias:

a) a insatisfação com a situação presente;

b) atribuir os problemas da situação presente à uma má organização do mundo;

c) crença que é possível uma salvação, em relação ao mal do mundo;

d) em consequência, crença que a mudança da ordem do ser se dará no processo da

história;

v) e por isso, a crença de que a mudança na ordem do ser depende da ação

humana, principalmente política; e finalmente,

e) em decorrência do exposto nas anteriores, crença que um método para alterar a ordem

do ser deva ser criado, pelo conhecimento ou gnose, que poderá transformar a realidade

existencial, social e política, tornando o pensador gnóstico em um profeta da salvação,

por meio de sua ideologia. (VOEGELIN, 2000, p. 295-298).

Quatro paradigmas da mitografia gnóstica

Segue uma breve apresentação de um quadro dos quatro paradigmas da mitografia gnóstica:

1. O Mito do Demiurgo. Criação, o mundo ou mesmo a realidade por si mesma é controlada por uma divindade inferior e seus agentes. Estes anjos (ou Arcontes) criaram um véu de ilusão, ignorância ou mesmo desespero existencial sobre todos quem eles almejam dominar (ou às vezes se alimentar). No gnosticismo clássico, o personagem de Deus do Antigo Testamento foi o favorito modelo de vilão extramundano. Ele foi de vez em quando referido como o Demiurgo, termo grego para “artesão público”. Nos evangelhos gnósticos pós-modernos, o Demiurgo não necessariamente tem que ser um vilão divino, mas pode ter a forma de uma entidade opressiva, incluindo alienígenas, tecnologia fora de controle e mesmo instituições humanas. Tudo se resume a questão do controle humano versus a liberdade humana. Este mito inflama a questão do que é real e o que é falso em intricados níveis ontológicos (ou dimensões).  (CONNER, GONZALES).

2. O Mito da Alma Caída. Uma semente divina caiu em um mundo alienígena de um lugar que os gnósticos chamam de O Pleroma (ou plenitude). Esta semente crua de auto realização reside em cada mortal, também conhecida como “fagulha divina”. Isso é o que as criaturas inferiores do mito do demiurgo anseiam ou desejam corromper. Descansando em um sono ou estupor, a jornada épica verdadeiramente começa quando um mortal senciente descobre ou é escolhido para realizar o seu potencial transcendental. Uma confusa guerra de libertação tende a entrar em erupção. Nos animes e em outras ficções especulativas, que normalmente implicam no protagonista despertando para algum poder ou dom latente, a fim de cumprir um destino heroico. Este mito provoca a questão do que é ser consciente e os níveis de consciência que o ser humano é capaz de chegar (deve ser óbvio agora, que o gnosticismo e a ficção especulativa cogitam freneticamente sobre questões que vão além da ciência tradicional, moralidade e metafísica).  (CONNER, GONZALES).

 3. O Mito do Salvador. Ele pode assumir duas  formas. A primeira é que depois dele ou dela despertarem suas constituições supernaturais, o protagonista, ou a protagonista, não deve somente salvar aqueles que estão a sua volta dos Poderes e Principados que criaram o arranjo ilusório, ele ou ela deve espalhar o conhecimento (gnosis) aos outros para que todos compartilhem as mesmas liberdades ou descubram habilidades similares. A segunda forma é a figura do salvador que precisa de uma figura salvadora, já que a relação entre o hierofante e o neófito [ou seja, entre mestre e aprendiz] é central no gnosticismo (a caricatura do sábio professor oriental auxiliando o herói é comum entre os ocidentais). Este mito acende a questão do que significa ser um humano; e todos os seres humanos são verdadeiramente iguais, mesmo que alguns possuam maiores habilidades que os outros (um tema prevalecente nas histórias em quadrinhos, ficção científica, óperas e até mesmo séries de TV como Heroes).  (CONNER, GONZALES).

 4. O Mito do Sagrado Feminino. No gnosticismo clássico, Sophia toma o lugar central tanto como um ser caído e como o redentor da humanidade. Sua encarnação tem tomado muitas formas incluindo a Deusa Shekinah, na Cabala; Maria Madalena, no Cristianismo Esotérico; e Gaia, no Neopaganismo. Sylvia em O Show de Truman e Trinity em Matrix são duas das mais famosas nos reinos da ficção científica. A encarnação pode ser a protagonista, a professora do protagonista, ou mesmo vários prismas do protagonista. Ela resgata ou é resgatada, ou mesmo ambos, nas batalhas contra os agentes da opressão e da ruptura das falsas realidades. E é difícil negar a obsessão e a confusão dos animes com o feminino e a sexualidade em geral (o que afasta ou talvez complementa a atitude gnóstica de desconfiar do sexo). Isto inflama a questão de diferentes níveis de amor, amizade e individualidade no que pode parecer um universo frio e indiferente.  (CONNER, GONZALES).

Gnosticismo em animes

- FullMetal Alchemist


Nessa série de cunho pós Revolução Industrial e num mundo repleto de mistérios, a alusão do gnosticismo se faz pelo antagonista que tenta transformar o mundo por meio do conhecimento. Outro traço presente e facilmente associado ao gnosticismo é a cobra na cruz, uma referência à Árvore da vida, Sephiroth.

 

- Neon Gênesis Evangelion


As origens da humanidade são muito similares com a cosmogonia valentiniana, onde a queda de Sophia do Pleroma cria o universo e seus habitantes. Em Neon Genesis Evangelion, Sophia é substituída por uma existência denominada Lilith, cujos restos mortais são descobertos na Antártica e salvaguardados pelo ser humano moderno no Japão, nas profundezas de Tóquio 3. Logo depois, a civilização sofre o Dia do Julgamento quando outro ser chamado Adam (ecoando a celestial Adamas do gnosticismo, maniqueísmo e cabala) de alguma forma se choca com a Terra. Metade da humanidade é destruída, e os sobreviventes são forçados a viver no subterrâneo. Aquecimento global e outros cataclismas prejudicam os recursos do planeta. Um governo mundial distópico  surge das cinzas. (CONNER, GONZALES)

E depois chegam os anjos para piorar a situação.

Estas criaturas buscam recuperar os restos de Lilith e Adam das garras da humanidade, uma vez que também são seu pai e mãe primordiais.

Os anjos querem a mesma coisa que os lideres da humanidade querem – a reintegração com Lilith e Adam em ordem de criar uma consciência divina coletiva que governará suprema. Enquanto os cientistas humanos tentam desbloquear as essências de Lilith e Adam, eles usam partes de seus corpos titânicos para criar monstros chamados unidades Evangelion (ou Evas) em ordem de repelir a invasão divina. Evas parecem com os elegantes robôs gigantes estereotipados, mas, são realmente semideuses bestiais que podem conjugar suas sensibilidades com os agentes humanos. Isto tudo cria um grandioso cenário de batalha que assola ainda mais a civilização, já que os Anjos não encarnam na Terra como dândis alados, mas como pesadelos lovecraftianos. (CONNER, GONZALES).

Somente certos jovens privilegiados podem pilotar os Evas; e todos eles acontecem de serem jovens disfuncionais de 14 anos. O protagonista principal é Shinji Ikari, um adolescente torturado que não só se torna o Salvador da humanidade, mas um símbolo onde vários dilemas psicológicos e existencialistas podem ser canalizados. Suas esposas-irmãs são a tempestuosa Asuka Langley (um símbolo de Maria Madalena ruivo) e a astral Rei Ayanami (de cabelos prateados, o símbolo da mística Sophia). Esses jovens não somente atravessam diversas fases clássicas do amadurecimento e do crescimento do humano e do herói, mas também são atrapalhados por seus amores subdesenvolvidos espiritualmente e fisicamente de um para outro, eles representam a confusão de perder a inocência em um mundo insano com adultos e deidades indiferentes. (CONNER, GONZALES)

Neon Genesis Evangelion rasga e emaranha as realidades, e propicia estudos psicológicos dos personagens nesta alienação pós-industrial. A série também leva a audiência para as fronteira da insanidade e desertos teológicos através de um elenco de cansados e às vezes sobrenaturais personagens que atacam a trindade anti-heróica de Shinji, Asuka e Rei (e suas psiques eventualmente sendo absorvidas primeiro pelos Evas e depois pelos próprios Anjos). Desde sobreviver as falsas realidades do Ensino Médio até viajar nos planos celestiais para batalhar horrores da pré-criação, Neon Genesis Evangelion é uma enciclopédia do gnosticismo. Tudo isso é imprensado entre o potencial do espírito humano para alcançar altura inatingíveis e o puro terror do universo que os paraísos prepararam para o curto reinado da humanidade. (CONNER, GONZALES).

Referências Bibliográficas:

PIMENTA, De Faria Adelaide. GNOSTICISMO E MODERNIDADE NO PENSAMENTO DE ERIC VOEGELIN (1901-1985). Belo Horizonte, 2018.

DISSIDÊNCIA POP. Gnósticos Sonham Com Robôs Gigantes? O crescimento do gnosticismo nos animes japoneses. Parte 1. 2015. 






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